Sobre certezas e diálogo

by - terça-feira, março 10, 2015

Eu só queria fazer uma escova no cabelo para ir a uma formatura. Mal sabia eu que estava prestes a entrar em conflito ideológico. Eu estava em um salão de beleza - o ambiente pouco importa aqui, já que este tipo de conversa anda acontecendo frequentemente em diversos ambientes sociais. Para ajudar, havia acabado de ler este texto sobre rebater os absurdos que ouvimos, geralmente de alguém que acha que provavelmente vamos concordar, afinal, "parecemos" ser do mesmo círculo.

claro que eu compartilho das suas ideias, só que não.

Eu comecei a ouvir um monte de absurdos (na minha opinião) e não me aguentei. Porque eu geralmente dou um sorriso sem graça e mudo de assunto. Eu NÃO gosto de confronto. Não gosto de me indispor com desconhecidos. Mas anda difícil ultimamente.

A ladainha fez um trajeto característico: começou pelo impeachment, deu uma volta pelo Nordeste, passeou pela corrupção - sempre culpa "do outro", seja ele o político rico ou o pobre safado gozando sua bolsa esmola; e chegou até no casamento gay. Tentei argumentar dizendo que eles estavam confundindo direitos com privilégios.

Meus interlocutores eram dois: um homem mais velho e a mãe de uma menina novinha. Eu entrei na briga querendo estar certa. Como eles podiam estar tão errados ? No entanto, eu não tinha informações suficientes para cuspir provas da minha certeza na cara deles. E eles "tinham", provas tortas e bem questionáveis, na minha opinião, mas tinham, dentro daquela abordagem. E eu ficando vermelha e com taquicardia com tanto chorume.

Aquela discussão foi me desmontando. Porque eu queria estar certa, de qualquer maneira. Mas querer ter certeza não pode ser maior que o debate, que a escuta, a troca. Porque quando a gente se desarma e para de apenas querer estar certo, conseguimos argumentar, e convencer vira dialogar. Depois de um bate boca de mais ou menos uma hora, eu disse para o interlocutor mais velho (e mais cheio de certezas) que ele podia não gostar nem um pouco de como eu penso e vice versa, mas que o que a gente estava fazendo discutindo era muito saudável. Enquanto ainda estamos num país em que se pode discutir, mas vai que isso muda né ? Bom mesmo devia ser na ditadura.

No fim da discussão, a interlocutora mulher começou a concordar comigo em alguns pontos, e começamos a conversar, sem que tivesse sido decretado um lado "vencedor" daquele debate político. Conversamos sobre outras coisas e ela me contou sobre quando foi viajar para a Turquia e de como se sentiu oprimida por lá, e então enveredamos para o feminismo, em um debate muito mais amigável que o round 1 (alô sororidade ♥).

Acredito em uma militância de troca, de empatia, de diálogo. Não que esta seja a única maneira de militar - mas talvez seja o meu jeitinho de fazer isso, de tentar mudar o mundo, pessoa por pessoa, seja na fila do caixa ou esperando um ônibus. Melhor ainda quando se quebram as expectativas preconceituosas das pessoas - rola um mind fuck quando você está defendendo o direito dos gays de se casarem e de não serem espancados na rua, e cita Jesus Cristo como suporte bibliográfico: "ama o teu próximo como a ti mesmo".



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