Os problemas de "Girl Boss"

by - quarta-feira, junho 07, 2017



Quanto mais se fala de algo, para o bem para o mal, mais expectativa se cria. E isso que aconteceu com Girlboss, série do Netflix baseada na trajetória de Sophia Amoruso e sua loja Nasty Gal. Achei que eu "tinha que" tentar ver por conta da relação com a moda, afinal, assim como Sophia já fez, eu garimpo roupas em bazares e brechós não só para uso pessoal, mas também com fins comerciais e de acervo de figurino.

Nas minhas redes, vejo amigos e conhecidos dizendo que também não gostaram, e vi pelo menos dois posts de "influenciadoras relevantes" desaprovando, como no facebook das meninas do Tudo Orna, ou no post do blog Modices, que discorre muito bem sobre como a série está mergulhada no privilégio da mocinha branca hipster amargurada. Em contraponto, claro que tem gente bombando a série, resenhas positivas, ou ainda como montar looks inspirados. O Enjoei fez inclusive uma campanha com a Julia Petit, Ju Romano, Bruna Vieira e Karol Pinheiro, em que elas montam looks e falam sobre como "ser uma GirlBoss" (cê jura?). Fui até ver o vídeo feito pela Julia para a campanha, e imagino se vai haver alguma pergunta polêmica sobre isso no próximo Petit Comitê, afinal, a Internet não perdoa, e Julia costuma ser uma ilha de sensatez na maior parte do tempo. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. EDIT UP julia escrveu sobre isso

Sim, o figurino é ótimo, a trilha sonora também é muito boa, a produção é impecável. Mas o roteiro...  nem RuPaul salva (sim, ele aparece como o vizinho de Sophia). Tentei assistir, com o devido fastio, e fui até que longe, atingindo a marca de 5 episódios, mas não gostei e não consegui ver mais nada. E depois de ler e ouvir um monte de opiniões embebidas de mal estar com o conteúdo da série, me questiono porque a série gera interesse em pessoas como nós, que gostam de moda, e ao mesmo tempo irrita e incomoda?


Antes de escrever este texto, tive um fim de semana de garimpos, em que comprei coisas legais tanto no bazar da igreja da esquina quanto em brechós bacanas, que super admiro, com curadoria mara, dá para entender um pouco o hype da coisa. É muito legal garimpar uma coisa linda, vintage, com informação de moda, seja pelo valor que isso terá na sua montagem de looks, seja só pelo sabor de ter aquilo em seu acervo, ou ainda, no meu caso, aquele tesourinho de figurino que fica só aguardando ganhar vida em alguma produção de teatro, cinema ou editorial fotográfico. Você se sente esperta, agora possui algo que tem um gostinho especial e que mais ninguém tem. Se você trabalha com isso e revende essas peças então, nem se fala. 

Quase dá para se identificar e sentir esses sabores com a personagem que retrata a Sofia Amoruso (de maneira bem livre, como o próprio crédito inicial adverte). Existe alguma possibilidade de empatia com a personagem quando ela passa por perrengues: quem nunca empurrou um carro sem gasolina em uma ladeira (comigo aconteceu na Gov. Pedro de Toledo, perto do SESC, um pouco menos glamuroso que São Francisco e o bondinho), quem nunca passou pelo postinho do SUS com algo sério e constrangedor? Mas não, nem isso é suficiente, porque não traz uma dimensão crítica pra coisa.

Sophia é chata, mimada, irritante. Grita e revira os olhos a maior parte do seu tempo em tela. Você provavelmente conhece uma garota assim na vida real, e ela possivelmente se deu bem em algum aspecto pessoal ou profissional, assim como a protagonista. E é isso exatamente que me incomoda em relação à série. Fico até meio com vergonha de ver que ela é retratada como sendo um reflexo da nossa geração (malditos milennials), e que não só está tudo bem você ser anti-ética, oportunista, egoísta, mas é exatamente isso que vai te levar a ser um sucesso a ser copiado. 

Existe qualquer indício de criticidade da obra em relação à persona da protagonista? Se existe, é mínima, e pelo menos até onde assisti, aparece na voz de uma senhora, no primeiro episódio, alguém (pelo menos alguém) horrorizada com a postura de Sophia: "Isso que é o futuro? Que bom que estarei morta!". 

Mas e você, viu a série? O que achou, me conta ?

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