Figurinos Incríveis:The Handmaid’s Tale

by - quarta-feira, agosto 02, 2017



Não se preocupe, este não é um post resenha ou cheio de spoilers sobre a série do momento, The Handsmaid Tale. Está todo mundo falando sobre a série, por conta do tema distópico e suas trágicas semelhanças com o ambiente pós apocalíptico que estamos vivendo, mas a intenção do meu post é se ater ao figurino incrível de Ane Crabtee.

Porém, antes preciso explicar como fiquei sabendo sobre a série. A senhora teria um minuto para  a palavra de Margaret Atwood? Começou com meu amigo Roger, que me apresentou esta escritora, se não me engano o livro era Madame Oráculo, depois veio A Tenda, e desde então, fico de olho em qualquer coisa que leve o nome de Atwood.

Me lembro que eu estava chafurdando em alguma hashtag gringa de figurino e fui parar no incrível perfil de Ane CrabTee, figurinista responsável pelo figurino de Westworld e Os Sopranos. Isso já faz algum tempo, a série nem sequer havia estreado, e fiquei tentando entender o que era aquilo que tinha Elizabeth Moss (conhecida por Mad Men), Samira Wiley (de Orange is The New Black) e baseado em um livro da Margaret Atwood. Eu nem tinha ideia do o que era Hulu (uma espécie de NetFlix, não disponível no Brasil) ... Fui tentando montar o quebra cabeça e quanto mais eu entendia, mais obcecada ficava. Até que a série estreou e virou esse hype todo.

Até MamaRu cantou essa bola

Se você nunca ouviu falar sobre, a série trata de um futuro (próximo) distópico, onde os Estados Unidos sofreram um golpe de lideranças religiosas, em meio a uma onda de infertilidade que assola o mundo. O país então se transforma na República de Gilead, governada por um regime totalitário onde as mulheres são propriedade do Estado, não têm direitos e são divididas em castas – mulheres férteis, raras nessa realidade, pertencem ao grupo das aias e têm apenas uma função: procriar para famílias de homens poderosos e suas esposas estéreis.

Absurdo e assustadoramente possível

Sabe aquele apocalipse molambento, de trapinhos, tipo The Walking Dead? Esquece. The Handsmaid's Tale é o extremo oposto disso, tudo lindo, confortável e acolhedor se não fosse aterrorizante - e talvez por isso mesmo, seja tão terrível. A fotografia, a luz, a direção de arte, tudo é meticulosamente impecável, assim como o figurino.


Não tem nada extremamente luxuoso ou mirabolante, é um figurino simples e genial. A ficção científica, ou ainda, uma distopia do futuro, tem a liberdade de se inspirar e remixar diversas épocas e silhuetas, mas é interessante que alguma coisa seja familiar, reconhecível. Em uma história tão terrivelmente atual como Handsmaid's Tale, isso é muito importante. As mulheres dos comandantes de Gilead, principalmente Serena Joy, usam vestidos simples e sofisticados (aquele sofisticado Carrie Underwood) em tons de azul, que até remetem levemente à década de 1950 em alguns momentos; as "Martas" e as tias, mulheres não férteis, usam verde militar apagado e silhuetas práticas que lembram roupas femininas do pós guerra. Já as aias usam algo com uma silhueta que remete ao começo do século XX, mas com caráter de uniforme de prisioneiras, algo prático e ao mesmo tempo muito conservador. A silhueta pode ser antiga, mas  existe moletom e zíper, por exemplo.

No artigo do BuzzFeed "Como vestimos as mulheres para o fim do mundo?", a figurinista de Jogos Vorazes, Judianna Makovsky, diz que "tudo é mais aterrorizante quando parece que você poderia viver ali". Exatamente o efeito que Ane CrabTee queria com o design do figurino de Handsmaid Tale: "Eu não queria que as pessoas assistissem e não sentissem que aquilo poderia acontecer com elas. (...) Pelo amor de Deus, isso poderia acontecer comigo, com a minha mãe, com a tiazinha da lavanderia".

A própria Margaret, quando questionada sobre a verosimilhança do tema do livro com os acontecimentos atuais faz coro à essa ideia: "Eu não criei este mundo, eu reflito este mundo.  No que me diz respeito, eu só estava reproduzindo um mundo que já existia. Eu não escrevi sobre coisas que as pessoas nunca haviam feito antes, e por isso mesmo são perfeitamente capazes de fazer de novo". Atwood escreveu o livro em 1984, morando na Alemanha da Guerra Fria.



Fluidez e melancolia

Cada elemento do figurino tem um porquê - os coturnos usados pelas handsmaids/aias não tem cadarços, para que elas não se enforquem. A roupa de baixo é feia, desengonçada, carola, para que as aias pareçam garotinhas de um internato; tudo tem a ver com alguém ter controle sobre a vida delas.

Durante o processo, Ane testou diversos pilotos para os vestidos das aias, até que a fluidez das saias desse o efeito poético e melancólico que a produção precisava. As aias usam chapéus, inspirados na indumentária tradicional amish, que escondem os cabelos e apagam as individualidades, mas possuem um design que emoldura o rosto das atrizes.



Cor e Controle

A indumentária é uma maneira muito eficaz de controle totalitário, e tanto no figurino da série quanto no livro, as cores definem os papéis sociais dos personagens e subtraem as individualidades: cada casta de mulheres usa uma determinada cor. Nesse artigo, Crabtee diz que os figurinos modestos das mulheres de Gilead remetem à códigos de iconografia religiosa: "as esposas dos comandantes usam o azul da pureza, tal como a Virgem Maria; as aias  (handmaids) usam vermelho, do sangue do parto, mas também de Maria Madalena. Também como maneira de controle, já que vermelho é mais fácil de avistar se acontece uma tentativa de fuga."

AneCrabTee e os figurinos das aias, das mulheres dos comandantes, e das tias.

No processo de criação deste figurino, Ane CrabTee ficou obcecada por cor, que é uma maneira quase tribal de definir identidades através das roupas. Nesse artigo da Vogue, ela compartilha diversos detalhes sobre a produção, como sobre de onde vem sua inspiração: principalmente da observação do cotidiano. A paleta de cor principal veio de uma fotografia de uma folha de maple (planta típica do Canadá, terra natal da escritora Margaret Atwood e onde parte da produção foi filmada), que tem tons avermelhados, contra um céu de azul intenso. Já o verde militar das mulheres não férteis veio da cor e textura de um velho esfregão e fotografias de insetos. Sim, nós figurinistas trabalhamos com esta tradução de signos, cor e textura o tempo todo, e essas inspirações estão em todo lugar.



croquis dos figurinos

Até hoje, Ane CrabTee continua compartilhando sua obsessão pela cor vermelha das aias em seu instagram com a hashtag #areyouseingred, com editoriais de moda ou cenas do cotidiano onde o tom esteja presente.

Are you seing red?

E você, já viu a série, está curioso? Me conta o que achou do figurino nos comentários, e se você gostaria de ver mais posts desse tipo.

Imagens: Reprodução dos artigos e perfis de instagram citados. 

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1 Comenta aqui >>

  1. Estética do hemisfério norte, frio e calculado, não nem tensão e muito menos tezão, são recomendações do roteiro, e claro o acabamento :impecável, cirúrgico, tudo muito matemático e o mais importante: curioso e atraente para o espectador. Há um sotaque de Azzedine Alaïa.

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