"Quase" vintage: os figurinos de I Tonya e Lady Bird

Tudo bem que já passou o frisson da temporada das premiações, e toda a enxurrada de análises e resenhas dos filmes concorrentes, mas quero analisar os desafios e processos criativos dos figurinos dos meus dois filmes favoritos: Lady Bird e I, Tonya. 

Estive ensaiando escrever sobre os dois separadamente, mas acabei por juntá-los por serem dois figurinos que contam com informação de história da moda recente, que ainda nos é familiar, mas que já causam um estranhamento nostálgico. Levando em conta que um dos requisitos para algo ser considerado vintage é que tenha pelo menos 20 anos e que represente um instante de moda ou testemunho de um estilo (fonte), eu considerei estes dois figurinos como "quase" vintages. Enquanto a maior parte do filme I Tonya se localiza na década de 1990, as roupas retratadas não são exatamente um retrato da época, por serem de apresentações de patinação artística ou muito ordinárias e populares (como Tonya se vestia no cotidiano); já Lady Bird se passa em 2002, que são apenas 16 anos de diferença (ufa!), e também por se tratar de um figurino muito simples, sem nenhuma peça icônica ou absurdamente representante da história da moda daquele momento. E é exatamente este meu interesse - como as pessoas comuns se vestem em determinados períodos. 

I, Tonya



Desde a primeira aparição deste trailer em minha timeline, fiquei doida para ver: os personagens me pareceram muito humanos, controversos e interessantes, além de eu ser muito fã de qualquer coisa com Alisson Janey (a mãe da Juno). Segundo este artigo, a figurinista Jennifer Johnson conta que era importante que os trajes não fossem irônicos ou fizessem os personagens parecerem ridículos e esteriotipados, e essa foi a parte mais díficil. Jennifer fala que fez os estudos dos trajes de Tonya Harding por etapas, começando pela infância bem humilde, passando por sua estreia em 1986, o auge em 1991, quando ela realiza a façanha do Triple Axel (movimento de patinação) até uma leve melhora antes do "incidente" com a patinadora concorrente. 


Croqui do figurino de Tonya entre 1993 e 1994, quando ela estava um pouco melhor de grana. Imagem


Com relação às roupas de competição, o processo foi bem estressante, uma vez que as roupas eram confeccionadas pela própria Tonya e foram mal documentadas em foto e vídeo. Se você alguma vez já passou pelo inferno que é confeccionar roupas que esticam - tive essa experiência quando fiz um figurino de circo, sabe como é dificil trabalhar com lycra! Segundo Jennifer, "o traje mais interessante foi o da final nacional de 1991 - aquele famoso collant turquesa, que Tonya havia ela mesmo confeccionado. Era importante que ele não vestisse perfeitamente, porque o que Tonya tinha à mão era um jumbo spandex (tipo de lycra) que esticava apenas em um sentido, então os braços ficavam meio soltos, moles e amassados. Tinha algo de doce nessa ideia".


O collant de 1991.

Outra das dificuldades da caracterização quando se trabalha com reconstituição de fatos reais é que geralmente tudo é mais bonito e glamouroso quando está sendo usado por uma atriz de Holywood, ainda mais se for Margot Robie. Neste outro artigo, a maquiadora Deborah La Mia fala sobre as horas de backstage para que Margot ficasse com uma aparência mais descuidada, com produtos de maquiagem de farmácia dos anos 90. Figurino e caracterização funcionaram tão bem que foram elogiados pela própria Tonya Harding!

Lady Bird



Já Lady Bird é de um período mais recente, e como já falei no meu instagram, me identifiquei muito com a personagem, um pouco por sermos da mesma geração. O momento nos é familiar, não tão afastado, porém causa estranhamento - necessário para nos situar cronologicamente na era pré facebook, logo após 11 de setembro, onde se passa o filme. Aliás, o ótimo Matheus Pichonelli escreveu um texto muito legal sobre o filme, do qual cito este trecho:

"O filme, vale lembrar, se passa em 2002, um ano que, segundo a protagonista, só tem graça por ser um palíndromo. Para ela, nada acontecia demais naquela cidade, naquele tempo – mal imaginava que uma revolução estava prestes a acontecer no mundo naquela primeira década do século. A referência ao celular, um bem de consumo a princípio associado por aqueles jovens como um rastreador do paradeiro dos filhos, dá a dimensão de uma revolução subestimada. Graças à tecnologia, ninguém se comunicaria como antes depois de 2002. E nunca uma mudança tecnológica afetou tanto a forma de pensar, agir e falar como aquele “rastreador”. Lady Bird é um epílogo da geração pré-Facebook."

2002, com cara de 90s (imagem de Merie Wallace )

As roupas da protagonista tem mais informação de moda da década de 1990 do que de 2000, e segundo este artigo, a diretora Greta Gerwig’s forneceu seu próprio acervo pessoal de fotos e diários para que a equipe criativa desse forma à história autentica e intimista de Lady Bird. 

A figurinista April Napier conta que começou pelos sapatos, e assim foi montando o guarda roupa peça por peça, em uma jornada de um total de 96 trocas de roupa para o filme todo. Neste outro artigo, Napier conta que se inspirou em filmes do final da década de 1990, como 10 Coisas que odeio em você e Kids, fugindo das calças baixas e blusas curtas de 2002, como podemos lembrar pelos clipes de Britney Spears ou Christina Aguilera daquela época.

brechozeira before it was cool: Lady Bird usa peças dos 50s, 60s, 70s, 80s, 90s

O figurino do filma acaba sendo também o anúncio de um ponto de virada da maneira como nos vestiríamos a partir de então, com a grande popularização das fast fashions na primeira década de 2000. Como Lady Bird se encontra em um momento de descoberta e questionamento de si mesma, isso se reflete nas roupas escolhidas para a personagem, que passeiam por diversos momentos de uma nostalgia visceral.

De uma certa maneira, fez sentido para mim falar dos dois filmes junto, embora os dois sejam peculiares cada um à sua maneira. 

E você, assistiu aos filmes, o que achou dos figurinos?

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