O paradoxo do brechó: da desova à compulsão


TODO consumo causa impacto. Claro que consideramos o consumo de peças de segunda mão algo mais sustentável, "o produto mais verde é aquele que já existe", mas acho importante aproveitar os questionamentos trazidos ao final de uma intensa semana de Fashion Revolution Campinas para pontuar muitas coisas que venho pensando como consumidora, viciada e empreendedora de brechó.

Algo que vem sendo desconstruído com bastante força nos últimos dois anos é aquela ideia de brechó como algo que causa repulsa, que é roupa "de gente que já morreu" (eu rio muito da galera que usa esse argumento, sorry), mas às vezes nos vejo indo também para o extremo oposto, da compulsão, do "não preciso mas quero".

As desculpas para consumir loucamente em brechó - e da mesma maneira como se consome loucamente em fast fashion - são infindáveis: ah, mas é tão baratinho, ah, mas é tão criativo ... Eu mesma tenho uma ótima desculpa para ser acumuladora, como falei nesse vídeo: eu sou figurinista, dou aula de teatro, uso esse acervo para criações artísticas. Não, Anna Theresa, isso não te dá licença para comprar um terceiro vestido de noiva velho no bazar de caridade.

Nós encaramos o ato de consumo como legitimação de identidade, como expressão de gosto, e isso pode ser muito legal e também perigoso. Nos sentimos muito espertas quando nos deparamos com uma peça que tem uma informação de moda muito legal, ou no caso do famoso "achei essa peça de marca cara e paguei 1 real", como se de alguma maneira estivéssemos driblando o capitalismo, mas na verdade ainda estamos no mesmo ciclo, apenas nos achando muito fodas por resolver o problema do resíduo alheio. Que só é cool quando está em bom estado, atende as tendências do momento e fica bem na foto. Se for de marca, melhor ainda!

Ao mesmo tempo, ainda tem muita gente que olha para os brechós, bazares e campanhas de doação como um lugar de desova do que não serve mais, como a Ana Soares fala nesse post maravilhoso, chamado Manifesto de Segunda Mão, levantando uma bola que depois a maravilhosa Natály Nery vai trazer também nesse vídeo:



Cada um com sua abordagem, esses dois conteúdos me ajudaram muito a dar corpo para essa inquietação que me assombra - estamos trocando um consumismo por outro? Não é só não comprar, não é só comprar de segunda mão, também tem a ver com não comprar mais do que você precisa, em lidar com um desejo "errado" de ter por ter. 


Essa discussão é cabeluda, e nos toca em pontos diferentes, seja você consumidora ou vendedora de peças de segunda mão, ou as duas coisas, como eu. Para levar essa discussão para um lugar com mais engajamento que os posts de blog, eu criei uma hashag no instagram, #historiadebrechó, onde outras pessoas não só mostram seus looks bafo, como contam um pouco da sua relação com esse tipo de consumo. 

Então me conta, o que você pensa disso tudo?

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