Elegância azul no ônibus

Um dia desses, eu entrei no ônibus, e assim que entreguei minhas moedinhas na mão da cobradora, percebi a presença dele: ali parado, devia ter um pouco mais de 50 anos, tranquilão, exalando seu charme distraído, vestindo uma camisa azul de bolinhas brancas e uma calça azul marinho risca de giz, com as riscas azul turquesa. 

Ás vezes eu me arrependo amargamente de não carregar minha máquina fotográfica pra cima e pra baixo, e pior ainda, de não conseguir fotografar espontâneamente aqueles momentinhos simples e lindos da vida, como um cachorro vadio fazendo graça, uma criança curiosa, uma senhorinha vendo a vida passar, uma bexiga perdida num céu sujo de cidade, ou um senhorzinho trajado da maneira mais elegante que já vi.  Fiquei amargurada, tentei desenhá-lo, lembrei que o celular do trabalho que carrego comigo tem uma câmera, mas quando consegui me prontificar, foi tarde demais: ele havia puxado o sinal, e estava prestes a descer do ônibus. Fotografei a porta aberta e uma mancha azul.

Havia no ônibus uma conhecida minha, comentei com ela e logo uma mulher que estava sentada atrás dela entrou na conversa: "Lindo mesmo ele, não era ? Díficil ver um homem assim, usando roupa de bolinhas, tão bonito". O jeito foi tentar desenhá-lo. Quebrei minha cabeça tentando lembrar, mas as cores não tinham a mesma vida, as bolinhas não tinham a mesma graça. De qualquer maneira, fica aqui registrada a tentativa ...

O processo: testes com lápis e canetinhas ...

... E o resultado final: uma tentativa de guardar pra mim um pedacinho da buniteza dele.