Os problemas de Girlboss

Quanto mais se fala de algo, para o bem para o mal, mais expectativa se cria. E é isso que está acontecendo com Girlboss, série que estreou no Netflix, baseada na trajetória de Sophia Amoruso e sua loja Nasty Gal. Achei que eu "tinha que" tentar ver por conta da relação com a moda, afinal, assim como Sophia já fez, eu garimpo roupas em bazares e brechós não só para uso pessoal, mas também com fins comerciais e de acervo de figurino.

Nas minhas redes, vejo amigos e conhecidos dizendo que também não gostaram, e vi pelo menos dois posts de "influenciadoras relevantes" desaprovando, como no facebook das meninas do Tudo Orna, ou no post do blog Modices, que discorre muito bem sobre como a série está mergulhada no privilégio da mocinha branca hipster amargurada. Em contraponto, claro que tem gente bombando a série, resenhas positivas, ou ainda como montar looks inspirados. O Enjoei fez inclusive uma campanha com a Julia Petit, Ju Romano, Bruna Vieira e Karol Pinheiro, em que elas montam looks e falam sobre como "ser uma GirlBoss" (cê jura). Fui até ver o vídeo feito pela Julia para a campanha, e imagino se vai haver alguma pergunta polêmica sobre isso no próximo Petit Comitê, afinal, a Internet não perdoa, e Julia costuma ser uma ilha de sensatez na maior parte do tempo. Confesso que fiquei um pouco decepcionada.

rupaul dont judge me gif

Sim, o figurino é ótimo, a trilha sonora também é muito boa, a produção é impecável. Mas o roteiro ...  nem RuPaul salva (sim, ele aparece como o vizinho de Sophia). Tentei assistir, com o devido fastio, e fui até que longe, atingindo a marca de 5 episódios, mas não gostei e não consegui ver mais nada. E depois de ler e ouvir um monte de opiniões embebidas de mal estar com o conteúdo da série, me questiono porque a série gera interesse em pessoas como nós, que gostam de moda, e ao mesmo tempo irrita e incomoda?

Depois de um fim de semana de garimpos, em que comprei coisas legais tanto no bazar da igreja da esquina quanto em brechós bacanas, que super admiro, com curadoria mara, dá para entender um pouco o hype da coisa. É muito legal garimpar uma coisa linda, vintage, com informação de moda, seja pelo valor que isso terá na sua montagem de looks, seja só pelo sabor de ter aquilo em seu acervo, ou ainda, no meu caso, aquele tesourinho de figurino que fica só aguardando ganhar vida em alguma produção de teatro, cinema ou editorial fotográfico. Você se sente esperta, agora possui algo que tem um gostinho especial e que mais ninguém tem. Se você trabalha com isso e revende essas peças então, nem se fala. 

Quase dá para se identificar e sentir esses sabores com a personagem que retrata a Sofia Amoruso (de maneira bem livre, como o próprio crédito inicial adverte). Existe alguma possibilidade de empatia com a personagem quando ela passa por perrengues: quem nunca empurrou um carro sem gasolina em uma ladeira (comigo aconteceu na Gov. Pedro de Toledo, perto do SESC, um pouco menos glamuroso que São Francisco e o bondinho), quem nunca passou pelo postinho do SUS com algo sério e constrangedor? Mas não, nem isso é suficiente, porque não traz uma dimensão crítica pra coisa.

girlboss sao francisco

Sophia é chata, mimada, irritante. Grita e revira os olhos a maior parte do seu tempo em tela. Você provavelmente conhece uma garota assim na vida real, e ela possivelmente se deu bem em algum aspecto pessoal ou profissional, assim como a protagonista. E é isso exatamente que me incomoda em relação à série. Fico até meio com vergonha de ver que ela é retratada como sendo um reflexo da nossa geração (malditos milennials), e que não só está tudo bem você ser anti-ética, oportunista, egoísta, mas é exatamente isso que vai te levar a ser um sucesso a ser copiado. 

Existe qualquer indício de criticidade da obra em relação à persona da protagonista? Se existe, é mínima, e pelo menos até onde assisti, aparece na voz de uma senhora, no primeiro episódio, alguém (pelo menos alguém) horrorizada com a postura de Sophia: "Isso que é o futuro? Que bom que estarei morta!". 

Mas e você, me conta. Pretende assistir ou já viu, o que acha ?

 

Dress Code x Moda Consciente

Então eu comecei a trabalhar em um projeto novo que acontece dentro de um ambiente corporativo. Mesmo sendo um projeto cultural, eu senti uma mudança significativa no dress code, um pouco mais formal.

formal x informal

Como eu trabalho freelancer (à esquerda): botinha, parte de baixo curta, camiseta de estampa pop. Como eu trabalho em ambiente formal (à direita): blusa de mocinha, parte de baixo no joelho ou calça, sapato mais feminino. 

E porque nós ficamos tão preocupadas com questões de adequação de roupa em ambientes sociais diversos ? Esses dias li o artigo "Como a moral e o politicamente correto influem na sociedade em questões de vestimenta?", que resumia algumas dessas minhas novas inquietações, que acontecem principalmente com nós, mulheres. Não queremos parecer ingênuas demais, não podemos parecer duronas demais, temos que ser femininas, ao mesmo tempo que não podemos ser vulgares ... Afinal, como devemos nos vestir ? 

Me peguei naquela clássica crise: eu não tenho roupa. E olhei pra minha maneira de consumir roupa, construída a duras penas, em anos de bater perna em brechó, ações e estudos sobre moda consciente, e o mais determinante: muita pindaíba. Este projeto vai me trazer condições para consumir melhor, e talvez comprar naquelas marcas super conscientes que sempre tive vontade e nunca tinha tido condições, ou para investir em alguma peça que vou vestir pelos próximos 20 anos. Ao mesmo tempo, também é fácil cair na armadilha de comprar qualquer coisa correndo "porque preciso", em qualquer loja, só pelo impulso de se sentir adequada a qualquer custo. 

E aí eu entendi algo que eu via acontecer em discussões em grupos de facebook, sobre como às vezes a moda consciente demoniza quem usa fast fashion. Entre minhas novas colegas mulheres, acredito que só eu tenha um guarda roupa que é pelo menos 50% brechó. Eu que vivo bradando aos quatro cantos as boas novas da moda consciente, agora vejo que montar um guarda roupa de segunda mão é bem mais fácil quando você tem flexibilidade de horários ou apenas está inserida naquele contexto e por isso já sabe onde conseguir as peças que precisa para o seu tamanho e código de vestuário do trabalho.

Tempo e informação de consumo são privilégios, ora ora. 

Em tempos de glamurização de looks brecholentos, a gente precisa manter a visão crítica e reconhecer privilégios de consumo, mesmo quando o problema não é pagar caro - inclusive, com brechó é justamente o contrário. Sim, precisamos consumir menos e melhor, mas temos que lembrar que tudo isso é um processo, onde estão envolvidas muita coisa além da nossa vontade, e que por isso não dá pra sair demonizando a coleguinha que só compra em fast fashion porque é onde ela vai achar o tamanho dela, se adequar ao ambiente de trabalho e conseguir pagar. Ao mesmo tempo que sim, podemos perder o preconceito e consumir roupa de segunda mão, nem que seja nas ações de troca com as amigas, que olha, foi o que salvou esse meu novo guarda roupa!

Sim, é possível: look que eu uso na firma e que é TODINHO de brechó (saia e blusa VID Estudio Criativo), inclusive o colar (que é Que Chuchu Moda Vintage).

Sim, é possível: look que eu uso na firma e que é TODINHO de brechó (saia e blusa VID Estudio Criativo), inclusive o colar (que é Que Chuchu Moda Vintage).

Vamos conversar sobre empreendedorismo e empoderamento feminino?

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Em abril, vou participar do projeto EmPodera, idealizado por pessoas queridas e próximas da produção cultural, Kora e Cintia, que tenho a sorte de ter por perto, lá no Ideia Coletiva (onde fica a sede do VID também). Sabe quando você vê o resumo do projeto e pensa "Nossa, que legal, queria muito estar no meio disso"? Mais legal ainda é pensar nisso e depois ser convidada a integrar a programação!

Este projeto vai realizar ações culturais gratuitas, sob o viés do empoderamento feminino, dando destaque à presenças femininas em criações artísticas e culturais. Tem oficina de fotografia, dança, sessões de curta metragem, e o que eu acho mais legal - em ações que se espalham por diversos pontos da cidade, além de ações em pontos mais centrais, como a Estação Cultura, o MIS Campinas e no próprio Ideia Coletiva. 

Vou coordenar uma conversa sobre Empreendedorismo Feminino no dia 17 de abril, segunda feira, à noite, no Ideia Coletiva. Vai ser um encontro voltado para mulheres empreendedoras ou que querem começar a empreender, que atuam no contexto da economia criativa, principalmente na área cultural ou áreas criativas como moda, design e artesanato. O objetivo é a troca de experiências, informações e ferramentas de gestão e marketing aplicadas à economia criativa. Não tem taxa de inscrição, vai funcionar como contribuição voluntária - contribua como puder, se quiser.

17/abril - 19h. 25 vagas, preferencialmente mulheres
Local: Ideia Coletiva. Rua Sacramento, 610, casa 1, Centro

 

Vamos conversar sobre o empreendedorismo na área cultural, onde vemos muitas mulheres produzindo e empreendendo. Vamos falar de empreendedorismo, mas a partir de um olhar para o empoderamento feminino, dentro de um contexto de economia criativa e de produção cultural, que é de onde vem a minha fala, de onde vem minhas experiências.

Porque muitas vezes nós, artistas, temos dificuldade de olhar para nossos projetos com esse viés empreendedor. Aproveitando o gancho dos dois anos do VID Estúdio Criativo, empreendimento cultural do qual sou sócia fundadora, eu digo - não é fácil ser um ofício artístico e ao mesmo tempo um negócio, gerar renda, pensar em estratégias de marketing, prospectar cliente, escrever projetos e tudo mais. É comum que a gente tenha bastante dificuldade em nos definir: "Sendo duas mulheres vindas da área de artes, encaramos diversos desafios na maneira de nos entender como empreendedoras, com um pé na moda e outro na cultura, envolvidas pelo ambiente fértil da economia criativa. Nessa travessia, a experiência com produção cultural nos ajudou a inventar nosso empreendedorismo, mesmo tendo altas crises sobre 'o que fazemos?' "(leia este texto completo aqui: blog do VID).

Então vem conversar comigo lá no dia 17 de abril, seja você uma empreendedora ou aspirante a; ou se você tem interesse em saber como vivem e como geram renda as pessoas das áreas artísticas e culturais, vem comigo ;)

Poderia ser pior?

imagem: Anna Kühl

imagem: Anna Kühl

O dia da mulher é conhecido internacionalmente por ser uma ótima época para produtores de flores, que tem sua produção já comprometida até duas semanas antes da data. Em ações do comércio, até mesmo no trânsito, estamos acostumadas à receber uma rosa singela, muitas vezes vermelha, com esta intenção de "presentear, celebrar, homenagear" as mulheres. Quase como um jeito de nos consolar, não como se fosse um pedido de desculpas, mas como se nos fosse dito - olhe pelo lado bom, tome aqui esta florzinha, não pense em tudo aquilo de ruim que você precisa carregar não, viu ?

Porque olha, como carregamos. Não por acaso assumimos comportamentos amargurados às vezes - eu mesma escrevo amargurada nesse momento. Campanhas como #Meuprimeiroassédio só nos confirmaram aquilo que sabemos, amargamente - que a violência acontece com todas nós, em maior ou menor grau, não importa a idade.

É comum que quando surja a coragem para contar para alguém próximo, nesses nossos relatos a gente use expressões do tipo "graças a Deus não aconteceu nada pior" ou "ele só chegou a passar a mão, mas não aconteceu mais nada". Observo este tipo de expressão mesmo em relatos muito graves de violência doméstica, desde as mais leves até as mais absurdas do tipo "apanhei mas não morri". 

Eu mesma, quando pensei em aderir à #meuprimeiroassédio, me dei conta aliviada que nunca havia acontecido algo de realmente grave comigo. Esse nosso frágil mecanismo de alívio, de consolo, em que nos comparamos individualmente entre histórias escabrosas ajuda a nos distanciar desse sofrimento que todas nós passamos, em maior ou menor grau. Não deixa de ser um conformismo, uma maneira de nos amansar, de nos deixar quietinhas. Como se existisse um abismo imenso que separa vítimas extremas do machismo - tal como Isamara, morta pelo ex-marido na noite de reveillon em Campinas; e mulheres que "não tem do que reclamar", só porque ouvem uns fiu-fiu na rua ou quando reagem mal humoradas à piadas machistas ditas por conhecidos. O mais assustador é que não é um abismo que nos separa de Isamara. 

Claro, existem privilégios que eu, moça branca, cis, corpo padrão, classe média, ensino superior, preciso reconhecer, e que são privilégios abismais de proteção em relação à mulheres pobres, mães, negras, trans ... Mas o que me dói é que em maior ou menor grau, todas nós, e eu gostaria muito que tivesse alguma exceção entre as mulheres que me são próximas, mas infelizmente não há (embora estejamos cercadas de privilégios sócio-culturais); todas nós temos uma historia ruim para contar. Uma história que muitas vezes vem seguida daquela expressão tão gasta que usamos para nos confortar: "ainda bem que foi só isso que aconteceu, poderia ter sido bem pior".

Estou cansada destas tentativas rasas de alívio, consolo. Nossa única possibilidade real de conforto é termos umas às outras. Que o dia da mulher nos sirva com este propósito - de estarmos juntas. 

Hoje tem: Nenhuma a menos - Ato em Campinas, evento no face

Produzindo conteúdo desde 2010!

correio elegante

Comecei a publicar conteúdo como Creyssa Phyna, em 26 de fevereiro de 2010, quando eu estava provavelmente entediada em algum pós carnaval. Eu tinha 24 anos, era outra pessoa, a internet era outra internet, o mundo era outro. Isso foi antes da profissionalização dos blogueiros, palavra que caiu de moda, e hoje somos chamados de qualquer outra coisa, como produtores de conteúdo (meu termo favorito), digital influencers (eca) e por aí vai. 

Não sei se você que está lendo me acompanha há pouco tempo ou é da época do layout de bonequinhas de papel (uma obsessão, sempre). No ano passado, em crise com a grafia complexa do antigo nome, e querendo me assumir em uma coisa só, eu juntei todo o conteúdo produzido até aquele momento com meus serviços e portfólios, porque eu queria ser uma coisa só. 

E olha só que paradoxo - a gente nunca vai ser uma coisa só, não importa o quanto a gente tente, sempre vai sair uma crise disso. Mas é bom dar novos nomes para coisas antigas e vice versa, porque isso traz uma sensação de continuidade, de infinito, que pode ser bem interessante. 

Para comemorar esses sete anos de conteúdo, fui fazendo uma revisão vindo lá do comecinho, onde meu conteúdo mais parecia meus (incontáveis) painéis do pinterest, uma "mistura de almanaque, álbum de figurinhas, caixa de fotos queridas, relicário e curva de rio". Foi gostoso achar textos que eram participações das minhas irmãs, sobre comida e viagem. Tambem é bacana perceber que já apareciam textos coerentes com o que eu sou hoje, essa sensação de continuidade que é tão importante pra mim. Então deixo com vocês uma seleção de posts para distrair quem tá curtindo um carnaval tranquilão, mas caso você seja do time do glitter e da folia, é só guardar pra quarta feira de cinzas ;)

Lá do comecinho: Reflexões sobre Consumo e Minhas histórias de amor com costureiras
Meus favoritos de moda: Moda CompartilhadaEstilo Pessoal e Vídeo de Achados de Brecho,
Posts sobre viagens ou rolês favoritos: ArgentinaRolê em SP e Inhotim
Sobre vida criativa e história pessoal: Que historia sua casa conta sobre você ?
 

Lembrando que você também pode navegar nas categorias e pelo arquivo que fica na sidebar. Então aproveita esse carnaval com ou sem glitter, e a gente se vê no próximo post!

*Este texto foi originalmente escrito pro meu correio elegante, se você ainda não é inscrito é só se achegar aqui no rodapé do blog e digitar seu e-mail. 

Meu amor pelas coisas que brilham

Aprendi a bordar lantejoulas e paetês com 18 anos, e me lembro de ter ficado um pouco obcecada por isso na época, bordei uma borboleta imeeeensa numa camiseta que hoje me pergunto onde guardei, porque queria muito ver a cara desse trabalho de novo. 

Tenho um estoque vitalício de lantejoulas, canutilhos, acumulado ao longo de vários trabalhos de figurino, e que vou ganhando das pessoas que me conhecem, como uma amiga senhorinha costureira, que me passou de herança tudo que ela tinha de miçanga.

Gosto de bordar lantejoula em tuudo, como nesta encomenda especial do Catarse, mas uma das coisas que mais gostei de fazer foi esta máscara, para o espetáculo de dança Después :

Também produzi para um outro trabalho estes acessórios de cabeça de melindrosa, misturando plumas e paetês! Foi tão facinho que eu deveria tomar vergonha na cara e fazer um tutorial em vídeo ou aceitar encomendas pro Carnaval. Usei aquelas tiras elásticas de paetês, elásticos, miçanças, penas avulsas, dá pra usar o que tiver em casa!

Embora eu nem goste tanto assim de carnaval, devo confessar que fico bem feliz de ver as redes sociais inundadas de sereias, melindrosas, todo tipo de brilho, glitter e paetê!