Poderia ser pior?

imagem: Anna Kühl

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O dia da mulher é conhecido internacionalmente por ser uma ótima época para produtores de flores, que tem sua produção já comprometida até duas semanas antes da data. Em ações do comércio, até mesmo no trânsito, estamos acostumadas à receber uma rosa singela, muitas vezes vermelha, com esta intenção de "presentear, celebrar, homenagear" as mulheres. Quase como um jeito de nos consolar, não como se fosse um pedido de desculpas, mas como se nos fosse dito - olhe pelo lado bom, tome aqui esta florzinha, não pense em tudo aquilo de ruim que você precisa carregar não, viu ?

Porque olha, como carregamos. Não por acaso assumimos comportamentos amargurados às vezes - eu mesma escrevo amargurada nesse momento. Campanhas como #Meuprimeiroassédio só nos confirmaram aquilo que sabemos, amargamente - que a violência acontece com todas nós, em maior ou menor grau, não importa a idade.

É comum que quando surja a coragem para contar para alguém próximo, nesses nossos relatos a gente use expressões do tipo "graças a Deus não aconteceu nada pior" ou "ele só chegou a passar a mão, mas não aconteceu mais nada". Observo este tipo de expressão mesmo em relatos muito graves de violência doméstica, desde as mais leves até as mais absurdas do tipo "apanhei mas não morri". 

Eu mesma, quando pensei em aderir à #meuprimeiroassédio, me dei conta aliviada que nunca havia acontecido algo de realmente grave comigo. Esse nosso frágil mecanismo de alívio, de consolo, em que nos comparamos individualmente entre histórias escabrosas ajuda a nos distanciar desse sofrimento que todas nós passamos, em maior ou menor grau. Não deixa de ser um conformismo, uma maneira de nos amansar, de nos deixar quietinhas. Como se existisse um abismo imenso que separa vítimas extremas do machismo - tal como Isamara, morta pelo ex-marido na noite de reveillon em Campinas; e mulheres que "não tem do que reclamar", só porque ouvem uns fiu-fiu na rua ou quando reagem mal humoradas à piadas machistas ditas por conhecidos. O mais assustador é que não é um abismo que nos separa de Isamara. 

Claro, existem privilégios que eu, moça branca, cis, corpo padrão, classe média, ensino superior, preciso reconhecer, e que são privilégios abismais de proteção em relação à mulheres pobres, mães, negras, trans ... Mas o que me dói é que em maior ou menor grau, todas nós, e eu gostaria muito que tivesse alguma exceção entre as mulheres que me são próximas, mas infelizmente não há (embora estejamos cercadas de privilégios sócio-culturais); todas nós temos uma historia ruim para contar. Uma história que muitas vezes vem seguida daquela expressão tão gasta que usamos para nos confortar: "ainda bem que foi só isso que aconteceu, poderia ter sido bem pior".

Estou cansada destas tentativas rasas de alívio, consolo. Nossa única possibilidade real de conforto é termos umas às outras. Que o dia da mulher nos sirva com este propósito - de estarmos juntas. 

Hoje tem: Nenhuma a menos - Ato em Campinas, evento no face